Alguém que decidiu prestar atenção ao que já estava acontecendo.
Nasci em uma cidade pequena do norte da Inglaterra, em uma casa onde as coisas tinham lugar certo e hora certa. Meu pai trabalhava na mesma fábrica por trinta anos. Minha mãe organizava a semana em torno de tarefas que se repetiam como um relógio. Eu cresci achando que a vida era uma sequência de passos que se davam na ordem certa: estudar, trabalhar, comprar uma casa, formar uma família. Segui essa ordem por algum tempo. Estudei, consegui um emprego em um escritório em Londres, comprei um apartamento pequeno e comecei a planejar o resto.
O problema é que, quanto mais eu seguia o plano, menos eu sentia que estava vivendo algo meu. Os dias pareciam cópias uns dos outros. Acordava, ia ao trabalho, voltava, dormia. No fim de semana, fazia as mesmas coisas que todo mundo fazia: mercado, limpeza, talvez um cinema. Não havia nada de errado. Mas também não havia nada que fosse só meu.
A primeira vez que percebi que algo estava errado foi em uma reunião de trabalho. Estava ouvindo alguém falar sobre metas do trimestre e, de repente, tive a sensação de que estava assistindo a uma peça de teatro em que todos sabiam o texto, menos eu. Levantei, saí da sala, caminhei até o parque mais próximo e fiquei sentado em um banco por quase duas horas. Não fiz nada. Só fiquei ali, olhando as pessoas passarem. Quando voltei para o escritório, pedi demissão no mesmo dia.
Não foi uma decisão heroica. Foi mais como alguém que percebe que está afundando e resolve sair da água antes de ser tarde demais. Não tinha plano B. Só sabia que precisava parar de fingir que aquele caminho fazia sentido para mim.
Nos primeiros meses depois de sair do emprego, fiz o que qualquer pessoa faria: tentei encontrar outro caminho. Atualizei o currículo, mandei e-mails, marquei entrevistas. Mas nada parecia certo. Foi então que comecei a viajar sem destino. Comprava passagens baratas para lugares que nunca tinha ouvido falar direito. Chegava, alugava um quarto pequeno, e ficava. Sem roteiro, sem lista de atrações. Só o hábito de acordar e ver o que o dia traria.
Foi nessas viagens que comecei a anotar coisas. Não em um diário organizado. Em pedaços de papel, em guardanapos, em cadernos baratos que comprava em papelarias locais. Anotava o que via: o jeito como uma mulher arrumava flores em uma praça, o som de uma língua que eu não entendia, o cheiro de uma rua depois da chuva. Não sabia por que fazia isso. Só sabia que, se não anotasse, as coisas desapareciam muito rápido.
Não escolhi Portugal de propósito. Uma passagem barata me trouxe até aqui em uma época em que eu estava cansado de mover malas. Fiquei mais tempo do que pretendia. E então percebi que, pela primeira vez em muito tempo, não queria ir embora. Não foi amor à primeira vista. Foi mais como reconhecer um ritmo que combinava com o meu. As pessoas aqui parecem saber que o tempo não precisa ser preenchido o tempo todo. Que uma conversa pode durar duas horas sem chegar a conclusão nenhuma. Que uma refeição pode se alongar até a noite sem ninguém achar estranho.
Comecei a alugar quartos em casas de família, depois um pequeno apartamento em uma cidade do interior. E continuei anotando. Com o tempo, as anotações viraram páginas. As páginas viraram estas histórias que você está lendo agora.
Não escrevo para ensinar nada. Não tenho lições para dar sobre como viver melhor ou como encontrar propósito. Estas anotações são apenas o registro de alguém que decidiu parar de correr atrás de coisas que não eram dele e começou a prestar atenção no que já estava acontecendo ao redor.
Também não são memórias no sentido tradicional. Não conto minha vida de forma linear. Conto pedaços. Momentos. Observações que pareceram importantes no instante em que foram feitas. Às vezes volto a elas e vejo que mudaram de sentido com o tempo. Isso também faz parte.
Durante muito tempo, essas anotações foram só para mim. Mas em algum momento percebi que, se eu as guardasse só para mim, elas perderiam parte do sentido. Compartilhá-las é uma forma de dizer: “Isto existe. Alguém notou isto.” E talvez, quem sabe, alguém que leia encontre algo que também lhe pareça familiar. Não porque viveu as mesmas coisas. Mas porque também presta atenção às coisas pequenas que o mundo oferece quando se para para olhar.
Não sei quanto tempo vou continuar escrevendo estas páginas. Não tenho um plano. Só sei que, enquanto houver coisas que mereçam ser anotadas, eu vou anotar. E enquanto alguém quiser ler, eu vou compartilhar.
Obrigado por ler até aqui. Se alguma coisa ficou com você, isso já é mais do que eu poderia pedir.
Escrever para Henry